top of page

Por que é tão difícil criar conexões hoje em dia?: a solidão dos homens adultos

  • Foto do escritor: Tiago
    Tiago
  • 1 de mai.
  • 5 min de leitura

Fonte: iSTOCK/Getty Images


Há um tipo de sofrimento que nem sempre aparece de forma evidente. Ele não grita, não faz alarde. Vai se instalando aos poucos, nos intervalos do dia, no silêncio depois do trabalho, na rolagem automática do celular antes de dormir. É a experiência de querer se conectar e não conseguir.

Você já teve aquele desejo de querer se conectar com alguém, intensamente, mas simplesmente não conseguir? Muitas pessoas, homens e mulheres, especialmente jovens, têm relatado algo parecido: uma sensação de isolamento que não é apenas estar sozinho, mas sentir-se à margem da vida dos outros. Como se todos estivessem vivendo relações, criando vínculos, avançando, enquanto você fica para “titia”, observando de fora. Isso pode vir acompanhado de uma pergunta incômoda, que às vezes aparece sem aviso: “Será que minha vida vai ser sempre assim?”

Essa pergunta não significa necessariamente um desejo de desistir da vida. Muitas vezes, ela expressa o cansaço de tentar e não ver retorno. O cansaço de investir em conversas que não avançam, de entrar em aplicativos de relacionamento e sair com a sensação de ter perdido tempo, mas experienciando um cansaço pelo simples fato de tentar.


Não é só falta de companhia!

A solidão contemporânea tem sido estudada como um fenômeno crescente, especialmente entre homens. Pesquisas indicam que muitos homens têm menos amizades íntimas do que gostariam e encontram mais dificuldade em falar sobre sentimentos, o que limita as possibilidades de conexão profunda. Não se trata apenas de ter pessoas por perto, mas de sentir que se pode ser visto de verdade.

Existe também um aprendizado cultural. Desde cedo, muitos homens são incentivados a serem autossuficientes, a não depender emocionalmente dos outros, a não demonstrar vulnerabilidade. Isso pode funcionar em alguns contextos, mas cobra um preço alto quando o assunto é intimidado pois para se conectar com outras pessoas, precisamos nos permitir algum grau de exposição, o que é um risco considerável.

No contexto da vida romântica, os aplicativos de relacionamento prometeram facilitar os encontros e, pode-se dizer, que de certa forma eles cumprem essa função. Mas eles também introduzem uma lógica de mercado nas relações, em que os perfis são avaliados rapidamente, decisões são tomadas em segundos e a sensação de substituibilidade é constante. Como captar “a essência” de uma pessoa por informações tão fragmentadas na bio de uma rede social associada a fotos que são fragmentos de momentos específicos da vida de alguém?

Alguns estudos sugerem que esse formato pode aumentar a sensação de rejeição e diminuir a disposição para investir em uma única pessoa. Quando há sempre a possibilidade de “mais opções”, o vínculo perde espaço para a comparação. Para quem já se sente inseguro ou deslocado, isso pode reforçar a ideia de não ser suficiente.

Além disso, existe um fator de tempo. A vida adulta, especialmente em contextos urbanos, tende a ser marcada por trabalho intenso, o tempo que resta para outras coisas é curto, quando há tempo, pode haver o cansaço, e por aí vai. O espaço para cultivar relações vai ficando cada vez mais reduzido. O encontro de alguém legal deixa de ser um processo e passa a ser algo que precisa acontecer rápido, quase como uma tarefa.


Tédio, melancolia e o vazio do cotidiano

Quando o desejo de conexão não encontra resposta, o cotidiano vai ficando nebuloso. Não é necessariamente uma tristeza intensa, mas uma espécie de desânimo contínuo. As coisas perdem um pouco da cor. O tempo livre, que poderia ser descanso ou prazer, vira um espaço em que a ausência de vínculo se torna mais evidente. Não é a perda de algo específico, mas a sensação de que algo importante está faltando, sem saber exatamente o que é. Em certos momentos, pode surgir a dúvida sobre o sentido de continuar tentando.

Essa dúvida precisa ser levada a sério, mas não de forma literal. Muitas vezes, ela aponta para uma necessidade não atendida: a de pertencimento, de reconhecimento, de troca genuína e equilibrada entre pessoas. O problema não é a vida em si, mas a forma como ela está sendo vivida, ou as condições que estão dificultando experiências mais significativas.


O que dificulta a conexão?

Não existe uma única resposta, mas alguns fatores aparecem com frequência:

  • Dificuldade em expressar emoções ou iniciar conversas mais pessoais

  • Medo de rejeição, que leva a evitar tentativas

  • Experiências anteriores negativas que geram desconfiança

  • Expectativas muito altas ou muito rígidas sobre como a conexão deve acontecer

  • Falta de espaços onde encontros possam ocorrer de forma mais natural.

Importante ressaltar a conexão que pode acompanhar as relações não-amorosas. Amizades, grupos, atividades compartilhadas são caminhos importantes. Quando toda a expectativa fica concentrada em um relacionamento romântico, a pressão aumenta e a frustração tende a ser maior.


Cabe psicoterapia?

A psicoterapia não resolve a solidão de forma direta, no sentido de “trazer pessoas” para a vida do paciente. Mas pode ajudar a entender o que está acontecendo no modo de se relacionar, explorar padrões, se fazer algumas perguntas e entender funcionamentos: Como você se aproxima das pessoas? O que você espera delas? O que você evita mostrar? Como você lida com rejeições ou silêncios? Muitas vezes, pequenas mudanças na forma de se colocar já abrem possibilidades diferentes.

Além disso, a própria relação terapêutica pode ser uma experiência de vínculo. Um espaço em que você é escutado com atenção, em que suas experiências fazem sentido, em que não precisa fingir que você é algo que não é o tempo todo. Isso não substitui outras relações, mas pode servir como base para construí-las.


Um ponto de partida possível

Se você se reconhece em algo desse texto, talvez o primeiro passo não seja “resolver tudo”, mas nomear o que está acontecendo. Pode ser desolador por um momento, mas reconhecer a solidão, o cansaço, o desejo de conexão é um movimento para encontrar uma experiência diferente! Ou, pelo menos ,para não se manter num fluxo de que cometer os mesmo erros de novo.

A partir daí, vale experimentar pequenas mudanças. Dicas seriam: investir em contextos em que o encontro não seja tão mediado por avaliação imediata. Permitir-se conversas um pouco mais profundas, mesmo com o risco que isso envolve; rever expectativas que talvez estejam tornando tudo mais difícil; frequentar espaços alternativos simplesmente pela intenção de experimentar; aceitar aqueles convites que são tão fáceis de serem rejeitados, e por aí vai.

É claro que nada disso garante resultados rápidos, mas pode ajudar a criar condições diferentes para aumentar as chances de que algo novo aconteça.

Nunca é demais lembrar que essa experiência não é um fracasso individual. Ela está ligada a transformações mais amplas na forma como vivemos, trabalhamos e nos relacionamos. Talvez, pela dificuldade de conexão, não consigamos tornar evidente que muitas das pessoas, do outro lado da tela do celular e por trás daquela bio no aplicativo de relacionamento, sintam-se da mesma forma que nós.


Referências utilizadas/sugeridas:

Borges, K. (2018). Muito além do arco-íris: Amor, sexo e relacionamentos na terapia homoafetiva. Zagodoni.

Cacioppo, J. T., & Patrick, W. (2011). Solidão: A natureza humana e a necessidade de vínculo social (J. Fuks, Trad.). Record.

Levine, A., & Heller, R. (2021). Maneiras de amar: Como a ciência do apego adulto pode ajudar você a encontrar e manter o amor. Sextante.

 
 
bottom of page