Pornografia e Erotismo: excitação sexual, busca de intimidade e o vazio
- Tiago

- 22 de dez. de 2025
- 4 min de leitura

Curiosamente, nos temos atuais, ainda falar sobre pornografia e erotismo podem provocar certa vergonha, sentimento estranhos e uma "falta de jeito", até mesmo constrangimento e culpa para muitas pessoas. Para outros, no entanto, virou algo tão comum que quase não se questiona mais sobre estas duas dimensões e suas marcas digitais na cultura contemporânea. Para quem permanece em silêncio, também não deixa de ser curioso (e problemático), visto que a relação moderna com conteúdo pornográfico vem informando várias coisas sobre a relação que estabelecemos com os nossos corpos, com a sexualidade e, principalmente, com a intimidade.
Nos consultórios de psicologia, percebemos que, entre jovens meninos em fase de descoberta do corpo e homens adultos, inclusive casados, esse tema costuma aparecer quando algo começa a não ir bem: dificuldade de se sentir excitado nas relações reais, comparação constante do próprio desempenho sexual com o que é visto nos conteúdos em vídeo, um afastamento emocional ou sensação de vazio após o consumo – traduzida naquela ideia “Pra quê eu fiz isto mesmo?”.
A pornografia pode ser definida como uma representação explícita de atos sexuais que visam provocar excitação imediata nas pessoas. Geralmente ela tem um foco no corpo (ou em partes dele), na performance e no ato sexual em si e onde não se incluem os elementos pertinentes (e diria também, inerentes) ao ato sexual, como vínculo emocional, intimidade ou significado relacional.
Ao longo da história, a pornografia existiu de forma mais restrita, em gravuras, textos ou revistas, exigindo busca ativa e envolvendo maior participação da imaginação. Com a internet, ela se transformou profundamente: tornou-se instantânea, sem limites e cada vez mais explícita, passando a funcionar não apenas como conteúdo, mas como um estímulo contínuo que molda expectativas sobre desejo, prazer e sexualidade.
Pornográfico versus erótico

É importante diferenciar, nesta reflexão, a pornografia do erotismo. O erotismo envolve sugestão, simbolismo e espaço para a imaginação, valorizando o desejo como experiência subjetiva e relacional (ex.: pode-se exemplificar a diferença quando se compara a franquia Emanuelle e o catálogo do Cine Privê com os atuais filmes pornográficos). Enquanto a pornografia tende a mostrar tudo de forma direta e crua, reduzindo o encontro sexual a cenas repetidas, artificiais e controláveis, o erotismo convida à construção gradativa e interna do desejo e à conexão com o próprio corpo e com o outro. Essa diferença ajuda a entender por que o consumo frequente de pornografia pode empobrecer a imaginação e dificultar a intimidade, enquanto o erotismo, quando presente na vida ou na relação, tende a aprofundar o vínculo e a experiência do prazer.
A pornografia não é apenas estímulo sexual inonfensivo e descompromissado, ela tem o poder real de impactar diretamente na imaginação. Como ela oferece cenas prontas, roteiros repetidos e corpos idealizados, com o tempo, a fantasia deixa de ser algo construído internamente e passa a depender de imagens externas cada vez mais intensas. Isso pode empobrecer a imaginação erótica pessoal e tornar o desejo menos criativo, mais automático e condicionado.
Diante disso, mais do que perguntar se pornografia é “certa” ou “errada”, talvez a questão mais honesta seja: o que ela tem feito com a minha capacidade de desejar, imaginar e me relacionar? A pornografia tem um papel estratégico e eficiente de oferecer respostas rápidas para tensões internas, desde sentimentos de solidão e ansiedade até ao tédio, aos estresses do dia a dia, entre outras frustrações. Contudo, é difícil afirmar que ela contribui na elaboração e superação dessas experiências. Quando o prazer se desconecta do encontro entre humanos e da presença do outro, algo da intimidade se empobrece. O corpo então vira objeto, passa a ser usado, comparado ou exigido.
O erotismo, por outro lado, nos lembra que o desejo precisa de tempo, de espaço psíquico e de alteridade, que é esta capacidade humana de reconhecer e se relacionar com o outro como alguém distinto de si, com desejos, limites e subjetividade próprios, e não apenas como extensão das próprias necessidades ou fantasias. Isto ocorre porque o erotismo não se sustenta apenas na excitação fisiológica, mas na relação, na troca e na possibilidade de ser afetado.
Não abordarei neste texto o fato de que, na cultura popular, cinema, vídeos musicais, músicas e publicidade, por vezes, flertam com a pornografia e com o erotismo. No entanto, é pertinente pensar que estamos culturalmente (talvez mais no mundo ocidentalizado) intensamente expostos a estímulos sexuais de toda a ordem e diversos contextos, o que nem sempre torna fácil a tarefa de filtrá-los e proteger-se dos impactos na capacidade imaginativa.
Recuperar uma relação mais erótica com a própria sexualidade, com o corpo e os desejos do seu(sua) parceiro(a) não significa negar o prazer, mas aprofundá-lo a partir de um movimento de integração do corpo, da imaginação e das suas emoções e sentimentos. Para muitos homens, jovens ou adultos, isso pode parecer muito complicado. Isto porque passa por rever hábitos, expectativas e, em alguns casos, por buscar um espaço terapêutico onde seja possível falar sobre sexualidade sem aquela vergonha intensa ou culpa paralisadora. Cuidar da forma como desejamos é também uma maneira de cuidar da nossa saúde emocional e da qualidade dos nossos relacionamentos.




