“Não consigo falar sobre minha sexualidade e isto me sufoca”
- Tiago

- 28 de dez. de 2025
- 4 min de leitura

Sim, falar sobre sexualidade pode ser delicado, por vezes até pensar sobre o assunto pode ser angustiante. Não porque faltem pensamentos ou sentimentos, mas porque existe um medo profundo do que pode acontecer quando aquilo que foi guardado por tanto tempo finalmente ganhe palavras. Esse silêncio costuma começar cedo, muitas vezes ainda na adolescência, quando alguém percebe que sente, deseja ou se reconhece de um modo diferente do que parece ser esperado ao seu redor.
É comum que os adolescentes aprendam, mesmo sem ninguém dizer explicitamente, que certos temas não devem ser mencionados. Comentários feitos em tom de piada, olhares de reprovação, frases como “isso é só uma fase” ou “não precisa falar disso” vão ensinando, pouco a pouco, que a melhor forma de se proteger é ficar calado. Com o tempo, esse silêncio deixa de ser apenas uma estratégia momentânea e passa a fazer parte da forma como a pessoa se relaciona consigo mesma.
No silêncio, uma miríade de dúvidas e dificuldades no campo da sexualidade (e da orientação sexual) surgem. Os meios de comunicação, a pornografia, as relações cotidianas todas educam neste campo. Não necessariamente atendendo as particularidades de cada indivíduo, mas modelam desejos, expectativas, formas de ser, assim como incutem angústias e desesperança sobre o que se é.
Na vida adulta, esse processo costuma se apresentar de maneira mais silenciosa, mas não menos dolorosa. Muitas pessoas aprendem a conviver com dúvidas sobre orientação sexual, conflitos em relação ao próprio corpo ou confusões sobre identidade de gênero como se fossem algo que deve ser administrado sozinho. Isto pode caminhar com a não compreensão sobre as sensações do corpo, a dificuldade de lidar com afetos complexos, até a eclosão de dificuldades sexuais e mesmo parafilias.
Daí surge a ideia de que já passou do tempo de falar sobre isso, de que mexer nesses assuntos pode causar mais problemas do que alívio. Ainda assim, o que não é dito continua atuando por dentro, gerando ansiedade, tristeza, sensação de vazio ou dificuldade de se envolver emocionalmente com outras pessoas. Há quem siga tentando lidar com isto sozinho, como mantendo-se numa realidade paralela em que se afastar deste meio, que tanto impactou no seu desenvolvimento, é possível e desejável.
Em alguns casos, o sofrimento não aparece de forma clara. A pessoa pode não saber exatamente o que a incomoda, apenas sente que algo não está no lugar. Pode haver um desconforto constante consigo mesmo, uma sensação de viver de forma incompleta ou de estar sempre representando um papel. Quando os conflitos envolvem identidade de gênero, esse mal-estar pode ser ainda mais difícil de nomear, o que aumenta a solidão e a sensação de não ter com quem falar. Sim, ao homem e à mulher que sentem “desajustados” no que se entende que é ser homem ou mulher, são guardados sofrimentos particulares. Se alguns vivem isto de forma mais persistente ou transitória, é menos importante do que o fato que tais experiências existem (independente dos “porquês” que as antecedam).
E apesar de determinadas formas de viver a sexualidade e a identidade terem espaços particulares na cultura ocidental, na atualidade, a vergonha ainda costuma ocupar um espaço central nesses processos. Muitas pessoas acreditam que sentir vergonha é sinal de erro, fraqueza ou inadequação, quando na verdade ela costuma indicar a presença de um conflito interno importante. Existe um choque entre aquilo que a pessoa sente e aquilo que aprendeu que deveria sentir, ser ou desejar. Para os meninos e homens adultos, isso frequentemente se soma a expectativas rígidas sobre masculinidade, como a ideia de que não se deve demonstrar dúvida, fragilidade ou confusão emocional.
Um dos maiores medos é imaginar que falar sobre sexualidade ou identidade significa precisar tomar decisões imediatas ou assumir rótulos definitivos. Mas falar não é decidir tudo. Falar pode ser apenas um primeiro movimento de cuidado, uma tentativa de organizar pensamentos, aliviar o peso interno e deixar de enfrentar essas questões sozinho.

Viver os conflitos com a sexualidade, quando há resoluções prontas dos diversos setores da sociedade (ex.: movimentos sociais, igrejas, especialistas de saúde mental) não tornam a vivência deste impasse mais fácil, necessariamente.
Em um espaço terapêutico sério e acolhedor, não tratamos de conduzir alguém a conclusões prontas, mas de oferecer escuta, tempo e respeito pelo ritmo de cada pessoa. O bom espaço de psicoterapia acolhe as perguntas, nos ajuda a sustentar angústias diante de respostas que não são satisfatórias, oferece abertura para novas formas de viver, auxilia nas nossas resoluções.
Quando esses temas encontram um lugar seguro para serem abordados, algo curiosíssimo acontece: o sofrimento começa a perder força. Não porque todas as respostas aparecem, mas porque a pessoa deixa de carregar tudo sozinha. Reconhecer que o silêncio também cansa e que falar é uma possibilidade, pode ser um passo fundamental. Veja que falar aqui não significa “proclamar aos quatro ventos o que eu sou e como eu vivo”, mas pensar sobre a sua existência com a paciência e atenção que ela merece.




