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Parafilias e a culpa religiosa: quando o sofrimento vai além da sexualidade

Foto do escritor: Tiago Peixoto
Tiago Peixoto
8 de jul.
4 min de leitura
Foto: Pexels / Personare
Foto: Pexels / Personare


Existem pessoas que convivem durante anos com segredos sobre sua vida sexual que nunca tiveram coragem de contar. Não porque tenham cometido algum ato violento ou ilegal, mas porque sentem vergonha do que acontece na própria imaginação.  

Às vezes, o incômodo começa quando a pessoa percebe que se excita com algo que foge do que considera "normal". Em outras situações, ela já pertence a uma comunidade religiosa na qual determinados desejos são entendidos como incompatíveis com a vida de fé. Não incomum, o resultado costuma ser uma mistura de medo, culpa e a sensação de que existe algo profundamente errado consigo. Acredite: esse conflito é mais comum do que se imagina!


Afinal, o que é uma parafilia?

Na Psicologia e Psiquiatria, o termo parafilia descreve interesses ou fantasias sexuais persistentes que se diferenciam daqueles considerados mais habituais. Isso não significa, automaticamente, que a pessoa tenha um transtorno mental. Destaca-se isto pois existem inúmeras formas de parafilia. Alguns exemplos são:

  • excitação relacionada ao uso de determinadas peças de roupa ou materiais, como couro, látex ou lingerie (fetichismo);

  • interesse por pés ou outras partes específicas do corpo;

  • excitação associada a práticas de dominação e submissão (BDSM), desde que ocorram entre adultos, de forma livre e consensual;

  • prazer em determinadas dinâmicas de humilhação ou controle, quando também consensuais.

Por outro lado, existem interesses sexuais que envolvem vítimas sem possibilidade de consentimento ou risco de dano (como o exibicionismo dirigido a pessoas desconhecidas), o voyeurismo invasivo ou a pedofilia – que exigem uma avaliação clínica cuidadosa e, muitas vezes, intervenção especializada.

Pausa aqui. Perceba que estamos falando de situações muito diferentes entre si. Colocar tudo no mesmo grupo apenas porque foge do convencional costuma gerar mais confusão do que esclarecimento.


Nem toda parafilia é um transtorno

Essa é uma distinção importante e que muitas pessoas desconhecem. Os manuais diagnósticos de transtornos mentais atuais diferenciam a existência de uma parafilia da presença de um transtorno parafílico. Isto porque: uma pessoa pode ter uma fantasia recorrente envolvendo determinada prática e nunca colocá-la em ação. Ou pode vivê-la consensualmente, sem causar prejuízo a si ou a outras pessoas.

Em geral, fala-se em transtorno quando aquele interesse produz sofrimento intenso, perda de controle ou envolve pessoas que não consentem, incapazes de consentir ou situações em que existe exploração ou violência. Essa diferença muda completamente a forma como o tema deve ser compreendido. Muitas pessoas apresentam fantasias ocasionais ou preferências específicas sem jamais praticá-las ou sem que isso cause qualquer prejuízo em suas vidas.

Podemos colocar, de forma resumida, da seguinte forma:

  • Parafilia: existência de um interesse sexual atípico.

  • Transtorno parafílico: quando esse interesse provoca sofrimento significativo na própria pessoa ou envolve comportamentos que violam o consentimento de outras pessoas ou causam risco de dano.

 

Sofrimento & Culpa

Na clínica, nem sempre o principal problema é a fantasia sexual. Muitas vezes, o que realmente adoece é o significado que a pessoa dá a esta fantasia. Isso acontece com frequência entre indivíduos que valorizam profundamente sua religião, sobretudo orientações normativas no campo da sexualidade. Alguns passam a acreditar que o simples fato de terem determinado pensamento significa que são moralmente perversos, que perderam sua relação com Deus ou que jamais conseguirão viver uma vida espiritual autêntica. Não é raro surgirem perguntas como:


"Se isso passou pela minha cabeça, será que, no fundo, é isso que eu sou?"

Ou ainda:

"Será que Deus vai deixar de me amar por causa desses pensamentos?"


Essas dúvidas podem ocupar a mente durante horas, favorecer crises de ansiedade, aumentar a necessidade de confissões repetidas, de rituais religiosos ou de tentativas constantes de eliminar qualquer pensamento considerado inadequado.


Pensamento não é destino!

Um aspecto importante da psicologia é reconhecer que nossa mente produz uma enorme quantidade de pensamentos, imagens e fantasias sem que tenhamos controle sobre isso. Ter um pensamento não significa aprová-lo e ter uma fantasia também não significa desejar realizá-la. Às vezes eles só vem..

Da mesma forma, sentir excitação diante de determinada imagem não define, sozinho, os valores de uma pessoa nem determina seu comportamento futuro. Quando acompanhamos em atendimento psicoterapêutico pessoas com tais dificuldades, essa diferenciação costuma aliviar um peso enorme para quem passou anos acreditando que sua vida moral poderia ser encerrada simplesmente no conteúdo dos pensamentos.


Saúde Mental e Fé: andemos juntos

Buscar psicoterapia não significa abrir mão das próprias convicções religiosas. Embora, sim, muitas vezes a diretriz de cuidado em psicoterapia possa entrar em tensão com algumas doutrinas religiosas. O impasse, acredito eu, não é só de campos de conhecimento diferentes que tem orientações às vezes divergentes, mas talvez seja na própria questão.

O trabalho clínico (que é desafiador) consiste em compreender como esses desejos, fantasias e conflitos se organizam na história daquela pessoa, quais significados assumem em sua vida e como ela pode viver de forma mais coerente com seus valores. Este trabalho é artesanal, envolve estabelecer arranjos criativos entre o que é o ideal e o possível.

Em alguns casos, o foco será aprender a lidar com impulsos que trazem sofrimento ou risco. Em outros, será elaborar a culpa excessiva. Outros casos, a necessidade de busca de conhecimento doutrinário pode expandir horizontes. Em muitos, será necessário trabalhar tudo ao mesmo tempo, mas de forma metodologicamente planejada. Cada história merece ser compreendida em sua singularidade.


Conclusão?

Sabemos que a sexualidade e espiritualidade são dimensões profundas da experiência humana e que, quando entram em conflito, podem promover vergonha, isolamento e um sofrimento silencioso. Por isso, antes de você assumir que existe algo "errado" com você, vale a pena compreender melhor o que realmente está acontecendo.

Recordo mais uma vez: nem toda fantasia define quem você é, nem toda culpa corresponde a um erro moral e nem todo sofrimento relacionado à sexualidade será resolvido apenas tentando expulsar pensamentos da mente. Em muitos casos, compreender a própria história é (será)

um caminho muito mais transformador do que viver permanentemente em guerra consigo mesmo.

 

 
 
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