Contágio social e autodiagnóstico
- Tiago

- 14 de mar.
- 2 min de leitura

Se você não vive numa caverna e sem internet, deve ter percebido que se tornou comum encontrar nas redes sociais vídeos e conteúdos diversos que versam sobre sintomas de transtornos mentais como ansiedade, TDAH, autismo, depressão, entre outros. O resultado: identificação imediata, “Eu tenho isto” ou ainda “Eu sou isto!”
Por causa da inflação diagnóstica e do excesso de informações, sobretudo na internet, uma ideia que vem sendo discutida em alguns âmbitos das ciências psi é o papel do contágio social. Esse conceito descreve como comportamentos, emoções e até sintomas psicológicos podem se espalhar dentro de grupos sociais, especialmente entre adolescentes e jovens. Isso não significa que o sofrimento seja falso. Pelo contrário: o sofrimento é real. O que pode variar é a forma como ele é interpretado e como ele é expresso.
Um grande estudo populacional com mais de 700 mil adolescentes mostrou que ter colegas de classe diagnosticados com transtornos mentais aumenta o risco de receber um diagnóstico semelhante posteriormente, especialmente para ansiedade, humor e transtornos alimentares. (Alho et al, 2024). Isso sugere que as redes sociais e os grupos de pares podem influenciar como os sintomas são reconhecidos e nomeados.
Para entender fenômenos assim, outros pesquisadores também propõem a ideia de um “pool de sintomas” (Paris, 2025). Isto é, em cada período histórico e cultural, certas formas de sofrimento se tornam mais disponíveis e compreensíveis para as pessoas. Assim, indivíduos vulneráveis podem expressar seu sofrimento utilizando os modelos de sintomas que circulam no ambiente social. Um exemplo é a difusão em adolescentes de comportamentos autolesivos. E, com a popularização de plataformas como TikTok, surgiu um fenômeno crescente: o autodiagnóstico mediado pelas redes sociais.

Pesquisas que vão surgindo sobre comportamento na internet (exemplo: Corzine e Roy, 2024) vão descrevendo como comunidades online podem reforçar identidades baseadas em diagnósticos psiquiátricos, oferecendo pertencimento e validação, mas, também (ora ora ora), criando riscos de autopatologização ou diagnósticos imprecisos. Outras descrevem como jovens chegam a serviços de saúde já com seus “autodiagnósticos” a partir do consumo de conteúdo sobre saúde mental na internet (Armstrong et al., 2025).
Além disso, algoritmos tendem a mostrar cada vez mais conteúdos semelhantes aos que o usuário consome, criando um efeito de “câmara de eco” diagnóstica. Isto significaria que, necessariamente, o autodiagnóstico é errado? Não. Para algumas pessoas, reconhecer sintomas pode ser o primeiro passo para buscar ajuda. O problema surge quando estas informações simplificadas substituem avaliação clínica, o diagnóstico se torna uma identidade fixa e outras explicações para aquele comportamento ou sofrimento deixam de ser consideradas.
REFERÊNCIAS UTILIZADAS E/OU SUGERIDAS:
Alho, J., Gutvilig, M., Niemi, R., Komulainen, K., Böckerman, P., Webb, R. T., Elovainio, M., & Hakulinen, C. (2024). Transmission of mental disorders in adolescent peer networks. JAMA Psychiatry, 81(9), 882–888.
Armstrong, S., Osuch, E., Wammes, M., Chevalier, O., Kieffer, S., Meddaoui, M., & Rice, L. (2025). Self-diagnosis in the age of social media: A pilot study of youth entering mental health treatment for mood and anxiety disorders. Acta Psychologica, 256, 105015.
Corzine, A., & Roy, A. (2024). Inside the black mirror: Current perspectives on the role of social media in mental illness self-diagnosis. Discover Psychology, 4, 40.
Paris, J. (2025). Social contagion, the psychiatric symptom pool and non-suicidal self-injury. BJPsych Bulletin, 49, 329–331.




