EQM: experiências de quase morte desafiam o que entendemos por consciência?

Uma das temáticas que venho achando mais interessantes é a que versa sobre experiências de quase-morte (EQM). Durante décadas, a consciência vem sendo tomada como um produto direto da atividade cerebral. Mas os relatos de EQM, que são diversos, passaram a tensionar essa explicação de maneiras que a ciência ainda não conseguiu resolver completamente.
As EQMs (Experiências de Quase-Morte) agrupam um conjunto de experiências psicológicas e perceptivas relatadas por pessoas que estiveram próximas da morte ou em situações de risco extremo de vida, como parada cardíaca, trauma grave ou coma. Diversas pessoas que sobreviveram a paradas cardíacas, acidentes graves ou estados clínicos críticos frequentemente relatam experiências profundamente vívidas e transformadoras. Entre os relatos mais comuns, encontramos: sensação intensa de paz, percepção de sair do próprio corpo, observação do ambiente à distância, revisão panorâmica da vida, visão de outros seres e angústia, alteração da percepção do tempo e encontros com figuras espirituais, familiares falecidos ou uma “luz” descrita como profundamente acolhedora.
Algumas experiências são curtas, outras mais intensas, algumas provêm sentido para experiências anteriores de vida da pessoa, outras são absurdas inicialmente, até tornarem-se gradativamente significativas com a passagem do tempo. Percebe-se que parte expressiva dos que vivenciaram uma EQM encontra nela um marco de sentido(s) em suas vidas.
Do ponto de vista neurobiológico, diversas hipóteses têm sido propostas para explicar as EQMs sem recorrer a explicações extrafísicas. Entre elas, destacam-se mecanismos relacionados à hipóxia cerebral, liberação de neurotransmissores em condições extremas, ativação de circuitos temporais associados a experiências dissociativas e alterações na integração entre áreas corticais e subcorticais. Essas hipóteses, embora plausíveis em diferentes graus, ainda não conseguem dar conta da totalidade do que foi e vem sendo reportado nas experiências, especialmente no que se refere à sua estruturação narrativa e ao impacto subjetivo duradouro.
Um dos estudos mais conhecidos sobre o tema, o projeto AWARE, investigou relatos conscientes durante episódios de ressuscitação cardiopulmonar. Neste estudo, os pacientes descreveram percepções lúcidas compatíveis com eventos ocorridos durante a parada cardíaca, período no qual a perfusão cerebral estava gravemente reduzida (Parnia et al., 2014). Embora isso não prove a existência de consciência independente do cérebro, o estudo levantou questionamentos importantes sobre o quanto ainda compreendemos os estados limítrofes da consciência humana.
Outro estudo publicado em Frontiers in Aging Neuroscience identificou padrões de conectividade neural associados a processos conscientes mesmo em estados críticos terminais (Vicente et al., 2022). Esses achados trouxeram novo questionamento se a consciência pode persistir brevemente além do que tradicionalmente consideramos como “apagamento” cerebral.
O psiquiatra Bruce Greyson (2010), uma das principais referências mundiais no estudo das EQMs, argumenta que essas experiências possuem padrões relativamente consistentes entre diferentes culturas, idades e contextos religiosos. Além disso, frequentemente produzem mudanças psicológicas duradouras, como diminuição do medo da morte, aumento de espiritualidade e mudanças nos valores existenciais.
Associado a este tema, frequentemente encontramos a referência às experiências fora do corpo (EFCs). Estas são relatadas dentro do contexto das experiências de quase-morte, mas não se restringem a ele e se constituem um fenômeno particularmente intrigante por envolver a sensação de separação entre consciência e corpo físico. Nessas vivências, o indivíduo descreve perceber-se fora de si mesmo, geralmente observando o próprio corpo e o ambiente ao redor a partir de uma perspectiva elevada ou deslocada no espaço. Em alguns relatos, há descrições de percepção detalhada de procedimentos médicos, diálogos ou eventos ocorridos durante estados de inconsciência, o que torna esse fenômeno objeto de intenso debate científico.
Na clínica psicológica, o relato de EQMs e EFCs, por vezes, é “reprimido” do processo terapêutico pela crença dos pacientes de que o profissional entenderá como uma forma de manifestação psicótica (deslegitimando a experiência e o impacto dela na vida da pessoa). Se isto pode ser verdade muitas vezes, não o é em todas as situações. Na minha perspectiva particular, experiências como tais têm o poder de produzir uma narrativa de sentido acerca da própria existência como poucas vivências conseguem. Por este motivo, elas podem e devem ser valorizadas como experiências humanas e integradas no trabalho psicoterapêutico que envolve esta pessoa!
Muitas pessoas não entendem que o tema das EQM/EFCs é estudado do ponto de vista científico há um bom tempo, não se tratando de um tema centrado na discussão mística e/ou espiritual (pois é verdade que relatos assim são descritos e pensados em várias tradições religiosas). Desta forma, fiz uma lista de referências (incluindo vídeos e artigos) para quem tiver mais curiosidade!
Referências utilizadas:
Greyson, B. (2010). Near-death experiences: Clinical implications. Nature Reviews Neurology, 6(4), 204–211. https://doi.org/10.1038/nrneurol.2010.15
Parnia, S., Spearpoint, K., de Vos, G., Fenwick, P., Goldberg, D., Yang, J., Zhu, J., Baker, K., Killingback, H., McLean, P., Wood, M., Zafari, A. M., Dickert, N., Beisteiner, R., Sterz, F., Berger, M., Warlow, C., Bullock, S., Lovett, S., ... Schoenfeld, E. R. (2014). AWARE—AWAreness during REsuscitation—A prospective study. Resuscitation, 85(12), 1799–1805. https://doi.org/10.1016/j.resuscitation.2014.09.004
Vicente, R., Rizzuto, M., Sarica, C., Yamamoto, K., Sadr, M., Khajuria, T., Fatehi, M., Moien-Afshari, F., & Lozano, A. M. (2022). Enhanced interplay of neuronal coherence and coupling in the dying human brain. Frontiers in Aging Neuroscience, 14, 813531. https://doi.org/10.3389/fnagi.2022.813531
Alguns artigos nacionais:
Carunchio, B. F. (2017). Caminhando pela vida e transitando pela morte: Experiência de quase morte (EQM) como uma experiência mística. REVER: Revista de Estudos da Religião, 17(2), 105–126. https://doi.org/10.23925/1677-1222.2017vol17i2a6
Carunchio, B. F. (2020). EQM perturbadora, saúde mental e a espiritualidade do paciente: Analisando relatos de brasileiros. REVER: Revista de Estudos da Religião, 20(3), 173–192. https://doi.org/10.23925/1677-1222.2020vol20i3a12
Carvalho, L. O., & Carunchio, B. F. (2024). Importância de um protocolo de primeiro atendimento de pacientes com experiência de quase morte (EQM). Gerais: Revista Interinstitucional de Psicologia, 17, e54199. https://doi.org/10.36298/gerais202417e54199
Coutinho, I. M., Silva, R. P., & Almeida, T. R. (2021). Experiência de quase morte: Revisão sistemática de literatura, abordagens e implicações clínicas. Revista Educação em Saúde, 9(2), 45–58. https://doi.org/10.29237/2358-9868.2021v9i2.p45-58
Oliveira, L. V. M., Souza, A. M., & Fernandes, M. A. (2021). A experiência de quase morte para enfermeiros: Um estudo de representações sociais. Revista Paulista de Enfermagem, 32, 1–9.
Santos, G. L. (2022). Experiência de quase-morte: Narrativas e significados. Revista NUFEN, 14(2), 1–15. https://doi.org/10.26823/RevistadoNUFEN.vol14.n02artigo12
Silva, M. C. M., & Moreira-Almeida, A. (2023). Impactos psicológicos da experiência de quase-morte: Abordagem pelo profissional de saúde. Interações – Cultura e Comunidade, 18, e18607. https://doi.org/10.5752/P.1983-2478.2023v18n1p1-18
Trent-Von Haesler, N., & Beauregard, M. (2013). Experiências de quase morte em parada cardíaca: Implicações para o conceito de mente não local. Archives of Clinical Psychiatry (São Paulo), 40(5), 197–202. https://doi.org/10.1590/S0101-60832013000500007
Alguns artigos internacionais:
Greyson, B. (2010). Near-death experiences: Clinical implications. Nature Reviews Neurology, 6(4), 204–211. https://doi.org/10.1038/nrneurol.2010.15
Greyson, B. (2015). Western scientific approaches to near-death experiences. Humanities, 4(4), 775–796. https://doi.org/10.3390/h4040775
Morse, M. L., Castillo, P., Venecia, D., Milstein, J., & Tyler, D. C. (1986). Childhood near-death experiences. American Journal of Diseases of Children, 140(11), 1110–1114.
Parnia, S., & Fenwick, P. (2002). Near death experiences in cardiac arrest: Visions of a dying brain or visions of a new science of consciousness. Resuscitation, 52(1), 5–11. https://doi.org/10.1016/S0300-9572(01)00469-5
Parnia, S., Spearpoint, K., de Vos, G., Fenwick, P., Goldberg, D., Yang, J., Zhu, J., Baker, K., Killingback, H., McLean, P., Wood, M., Zafari, A. M., Dickert, N., Beisteiner, R., Sterz, F., Berger, M., Warlow, C., Bullock, S., Lovett, S., ... Schoenfeld, E. R. (2014). AWARE—AWAreness during REsuscitation—A prospective study. Resuscitation, 85(12), 1799–1805. https://doi.org/10.1016/j.resuscitation.2014.09.004
Thonnard, M., Charland-Verville, V., Brédart, S., Dehon, H., Ledoux, D., Laureys, S., & Vanhaudenhuyse, A. (2013). Characteristics of near-death experiences memories as compared to real and imagined events memories. PLoS ONE, 8(3), e57620. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0057620
van Lommel, P., van Wees, R., Meyers, V., & Elfferich, I. (2001). Near-death experience in survivors of cardiac arrest: A prospective study in the Netherlands. The Lancet, 358(9298), 2039–2045. https://doi.org/10.1016/S0140-6736(01)07100-8
Vicente, R., Rizzuto, M., Sarica, C., Yamamoto, K., Sadr, M., Khajuria, T., Fatehi, M., Moien-Afshari, F., & Lozano, A. M. (2022). Enhanced interplay of neuronal coherence and coupling in the dying human brain. Frontiers in Aging Neuroscience, 14, 813531. https://doi.org/10.3389/fnagi.2022.813531
Livros científicos:
Amâncio, E. (2021). Experiências de quase morte (EQMs): Ciência, mente e cérebro. Summus Editorial.
Moody, R. A. (1992). Reflexões sobre a vida depois da vida. Nórdica.
Moreira-Almeida, A., Costa, M. A. de A., & Coelho, H. S. (2023). Ciência da vida após a morte. Editora Ampla.
van Lommel, P. (2010). Consciousness beyond life: The science of the near-death experience. HarperOne.
Livros que descrevem experiências:
Alexander, E. (2013). Uma prova do céu: A jornada de um neurocirurgião à vida após a morte. Sextante.
Alexander, E. (2014). Mapa do céu: Como a ciência, a religião e as pessoas comuns comprovam a vida após a morte. Sextante.
Moody Jr., R. A. (2004). A vida depois da vida. Butterfly Editora.
Long, J.., Perry, P. (2011). Evidências da vida após a morte: A ciência das experiências de quase morte. Sextante.
Filmes:
The Day I Died (Documentário)
Afterlife: The Science of Near Death Experiences (Documentário)
Beyond Our Sight (Documentário)
Youtube:
Afinal, quem somos nós? (Canal)



