Às vezes o sofrimento não cabe em um diagnóstico!
- Tiago

- 12 de jul.
- 4 min de leitura

Nos últimos anos, tornou-se cada vez mais comum ouvir pais, professores e até adolescentes utilizarem termos como TDAH, autismo, ansiedade, bipolaridade ou borderline para explicar dificuldades do dia a dia. As redes sociais ampliaram o acesso às informações sobre saúde mental, o que trouxe benefícios importantes, como a redução do preconceito e o incentivo à busca por tratamento. Ao mesmo tempo, esse movimento também produziu um efeito menos desejável: a impressão de que toda dificuldade emocional ou comportamental precisa necessariamente receber um diagnóstico psiquiátrico.
Na prática clínica, essa ideia nem sempre corresponde à realidade. Precisamos sempre recordar que a adolescência é um período marcado por intensas mudanças biológicas, cognitivas, sociais e emocionais. Estarão previstas oscilações de humor, conflitos familiares, dificuldades escolares, crises de identidade, sofrimento decorrente de rejeições, perdas, bullying ou mudanças de vida podem gerar sofrimento significativo sem que isso configure um transtorno mental (American Psychiatric Association [APA], 2022).
E isso não significa minimizar esse sofrimento, muito pelo contrário. Sabemos que um adolescente pode não preencher critérios para qualquer diagnóstico psiquiátrico e, ainda assim, precisar de psicoterapia, adaptações escolares, acolhimento familiar ou outras formas de cuidado.
Nem todo sofrimento recebe um diagnóstico
Embora, o objetivo de um diagnóstico seja identificar um conjunto de sinais e sintomas que formam um quadro clínico específico, seguindo critérios científicos bem estabelecidos, ele não foi criado para validar o sofrimento de alguém, mas para orientar o tratamento, facilitar a comunicação entre profissionais e favorecer pesquisas científicas (APA, 2022; Organização Mundial da Saúde [OMS], 2022).
Mas, precisamos recordar que, o sofrimento humano, entretanto, é muito mais amplo do que os sistemas diagnósticos conseguem descrever. Existem adolescentes que enfrentam intenso sofrimento devido a conflitos familiares, dificuldades de socialização, violência, luto, bullying, problemas de autoestima, crises existenciais ou mudanças importantes da vida. Muitas dessas situações não configuram um transtorno mental, embora possam causar prejuízos relevantes no desempenho escolar, nos relacionamentos e na qualidade de vida.
Esses adolescentes também precisam ser vistos. Um dos maiores equívocos atuais é imaginar que somente quem possui um diagnóstico "tem direito" a receber ajuda. E, de certa forma, a legislação brasileira dá brecha para este entendimento.
O problema quando o acesso ao apoio depende do diagnóstico
No Brasil, algumas legislações garantem direitos específicos para determinadas condições do neurodesenvolvimento. Por exemplo, há a Lei nº 12.764/2012, que institui a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista, reconhece a pessoa com autismo como pessoa com deficiência para todos os efeitos legais. Também há a Lei nº 14.254/2021 determina que o poder público desenvolva e mantenha programas de acompanhamento integral para estudantes com dislexia, Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e outros transtornos de aprendizagem, prevendo identificação precoce e suporte educacional.
Essas legislações representam avanços importantes e necessários, contudo evidenciam e deixa uma lacuna. Pense comigo: um adolescente que apresenta crises de pânico frequentes; o adolescente que desenvolveu intenso medo da escola após sofrer bullying; um adolescente em sofrimento decorrente de um episódio depressivo, transtorno bipolar, esquizofrenia, uso problemático de substâncias ou experiências traumáticas vividas no ambiente escolar. Todos esses quadros podem comprometer profundamente a aprendizagem, a frequência escolar, as relações sociais e o desenvolvimento emocional.
Apesar disso, diferentemente do que ocorre em alguns transtornos do neurodesenvolvimento, não existe uma política nacional que assegure, de maneira equivalente, adaptações e apoios educacionais específicos para esses estudantes. Na prática, muitas famílias acabam dependendo da sensibilidade de cada escola, de acordos individuais ou da atuação dos profissionais envolvidos.
Uma consequência pouco discutida
Essa realidade cria uma situação delicada para médicos, psicólogos e demais profissionais da saúde. Quando determinados apoios somente são concedidos mediante um diagnóstico específico, aumenta a pressão para que os profissionais emitam laudos que possibilitem o acesso a esses direitos.
Em alguns casos, essa pressão pode ocorrer mesmo quando o adolescente não preenche integralmente os critérios diagnósticos estabelecidos pelos manuais internacionais. Essa não é apenas uma questão clínica, mas também ética. Vivemos num país extremamente desigual, o diagnóstico pode conceder acesso a coisas que não seria possíveis na ausência dele.
Atribuir um diagnóstico apenas para facilitar o acesso a serviços pode trazer benefícios imediatos, mas também pode produzir consequências importantes: estigmatização, medicalização desnecessária, expectativas equivocadas sobre o funcionamento do adolescente e dificuldades futuras relacionadas ao próprio histórico de saúde. Por outro lado, negar qualquer forma de apoio porque não existe um diagnóstico formal também é profundamente injusto.
O foco deve ser a necessidade, não apenas o diagnóstico
Talvez seja hora de fazermos uma pergunta diferente. Em vez de perguntar "Qual é o diagnóstico desse adolescente?", talvez devêssemos perguntar, "Do que esse adolescente precisa atualmente para conseguir aprender, participar da escola e se desenvolver?"
Essa mudança de perspectiva aproxima-se do modelo biopsicossocial adotado pela Organização Mundial da Saúde e pela Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF), que propõe compreender não apenas a doença, mas também o funcionamento, as limitações e os fatores ambientais que interferem na vida das pessoas (OMS, 2001).
Dois adolescentes podem apresentar dificuldades semelhantes na escola por motivos completamente diferentes. Um pode ter TDAH. Outro pode estar vivendo um processo de luto intenso. Ambos podem necessitar de apoio, ainda que apenas um deles receba um diagnóstico psiquiátrico.
O que as famílias podem fazer?
Se seu filho ou filha apresenta sofrimento persistente, mudanças importantes no comportamento, queda no rendimento escolar, isolamento, crises emocionais ou dificuldades que vêm comprometendo sua vida, vale buscar uma avaliação profissional. Mas é importante lembrar que uma boa avaliação não tem como objetivo "encontrar um diagnóstico a qualquer custo".
Às vezes, o resultado será um diagnóstico bem definido. Em outras situações, a conclusão poderá ser justamente a de que existe sofrimento, necessidade de acompanhamento e intervenções específicas, sem que haja um transtorno mental. E isso não torna esse sofrimento menos real e nem que precisa de menos cuidado.
O desafio da saúde mental na adolescência talvez não seja produzir mais diagnósticos, mas construir formas de oferecer apoio proporcional às necessidades de cada jovem, independentemente de ele preencher ou não os critérios de uma classificação psiquiátrica.




