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Uso excessivo de tecnologias na adolescência: quando é um problema de saúde mental?

  • Foto do escritor: Tiago
    Tiago
  • 11 de jul.
  • 5 min de leitura

É comum que pais e responsáveis se preocupem ao perceberem que o filho passa horas no celular, em redes sociais, jogos on-line ou assistindo vídeos. Afinal, quanto tempo é "demais"? Quando esse comportamento faz parte da adolescência e quando pode indicar um problema de saúde mental?

Curiosamente, a resposta não depende apenas do número de horas diante da tela. Dois adolescentes podem usar o celular pelo mesmo tempo e viver experiências completamente diferentes. Enquanto um consegue manter amizades, estudar, dormir bem e participar da vida familiar, outro pode apresentar isolamento, queda no rendimento escolar, irritabilidade intensa e perda de interesse por atividades que antes eram importantes.

Por isso, atualmente, pesquisadores têm chamado a atenção para um aspecto importante: mais do que medir o tempo de uso, é necessário observar como a tecnologia está sendo utilizada e quais impactos ela produz na vida do adolescente.


QUANDO USO DEIXA DE SER SAUDÁVEL?


As tecnologias fazem parte da vida dos adolescentes e podem ser utilizadas para estudar, conversar com amigos, desenvolver interesses, produzir conteúdo e se divertir. O problema surge quando o uso começa a ocupar espaço de outras áreas importantes do desenvolvimento. Alguns sinais merecem atenção:


  • Dificuldade para interromper o uso do celular ou dos jogos;

  • Irritação intensa quando precisa ficar sem internet;

  • Prejuízo no sono por permanecer conectado durante a noite;

  • Queda no desempenho escolar;

  • Abandono de esportes, lazer ou convivência familiar;

  • Isolamento social progressivo;

  • Uso da tecnologia como única forma de lidar com tristeza, ansiedade ou frustrações.


Esses sinais não significam, por si só, que exista um transtorno mental. Entretanto, indicam que vale a pena compreender o que está acontecendo.


NEM SEMPRE O CELULAR É O CULPADO


Durante muitos anos, a discussão girou em torno da quantidade de horas de tela. Hoje, diversos pesquisadores defendem uma visão mais cuidadosa. Por exemplo, uma revisão publicada por Amy Orben e Andrew Przybylski (2019) mostrou que a relação entre uso de tecnologia e saúde mental existe, mas costuma ser muito menor do que frequentemente aparece em notícias ou redes sociais. Os autores encontraram efeitos modestos e alertaram que explicações simplistas, como afirmar que "o celular causa depressão", não são sustentadas pelas evidências científicas.

Isso significa que o celular, por si só, dificilmente explica o sofrimento emocional de um adolescente. Na maioria das vezes, é necessário considerar fatores como relações familiares, bullying, autoestima, qualidade do sono, dificuldades escolares, ansiedade prévia e características da própria personalidade.


REDES SOCIAIS E COMPARAÇÃO CONSTANTE


Um dos aspectos mais estudados atualmente é o efeito das redes sociais sobre a autoestima. Isto porque na adolescência é natural que exista uma preocupação maior com aceitação, aparência física e pertencimento ao grupo. As redes sociais podem intensificar esse processo ao expor continuamente imagens idealizadas da vida de outras pessoas.

Uma revisão sistemática publicada por Keles, McCrae e Grealish (2020) encontrou associação entre maior uso de redes sociais e aumento de sintomas de ansiedade, depressão e sofrimento psicológico em adolescentes. Os autores destacam que essa relação parece ser influenciada por fatores como comparação social, exposição ao cyberbullying e interrupção do sono.

Evidentemente, isso não significa que todo adolescente que utiliza redes sociais desenvolverá ansiedade ou depressão. Porém, quanto mais a autoestima passa a depender da aprovação on-line, maior tende a ser o sofrimento diante de críticas, rejeições ou da sensação de nunca ser "bom o suficiente".


O SONO COSTUMA SAIR PREJUDICADO


Muitos pais observam que o filho permanece acordado até tarde utilizando o celular e se preocupam com isto. Há estudos que mostram que o uso de telas antes de dormir está associado à redução da duração do sono e pior qualidade do descanso. Um deles, uma revisão conduzida por Hale e Guan (2015) concluiu que adolescentes que utilizam dispositivos eletrônicos próximo ao horário de dormir apresentam maior probabilidade de dormir menos, demorar mais para adormecer e relatar cansaço durante o dia.

Dormir pouco não afeta apenas o rendimento escolar. O sono ruim também pode aumentar irritabilidade, impulsividade, dificuldade de concentração e vulnerabilidade a sintomas de ansiedade e depressão. Muitas situações nomeadas de forma precoce como déficit de atenção ou ansiedade são melhor explicadas por um estilo de vida que pode unir sono ruim, excesso de estimulantes e mesmo alimentação pouco nutritiva.


JOGOS ELETRÔNICOS: DIVERSÃO OU PROBLEMA?

Os jogos fazem parte da cultura de muitos adolescentes e, para a maioria deles, representam apenas uma forma saudável de lazer. Entretanto, uma pequena parcela desenvolve um padrão de comportamento marcado por perda de controle sobre o tempo de jogo, dificuldade para interromper a atividade e manutenção do comportamento mesmo diante de prejuízos importantes.

Em razão das evidências acumuladas, a Organização Mundial da Saúde (OMS) incluiu o Transtorno de Jogo (Gaming Disorder) na Classificação Internacional de Doenças (CID-11). O diagnóstico não depende da quantidade de horas jogadas, mas da perda persistente de controle e dos prejuízos significativos na vida acadêmica, familiar, social ou ocupacional.


O QUE FAZER NESTES CASOS?

Em vez de transformar o celular no "vilão da casa", costuma ser mais produtivo compreender a função que ele ocupa na vida do adolescente. Algumas perguntas podem ajudar:

  • Meu filho ainda consegue se interessar por outras atividades?

  • Ele mantém amizades presenciais?

  • Está dormindo adequadamente?

  • Continua frequentando a escola e realizando suas responsabilidades?

  • O uso da tecnologia aumentou após algum sofrimento importante?

  • O celular é uma forma de lazer ou a única maneira de lidar com emoções difíceis?

Também é importante que a família estabeleça limites claros e coerentes, especialmente quanto ao uso de dispositivos durante as refeições, momentos de convivência e antes de dormir. Mais do que fiscalizar continuamente, o exemplo dos próprios adultos costuma ter grande influência sobre os hábitos digitais dos filhos.


QUANDO PROCURAR AJUDA PSICOLÓGICA?

É recomendável buscar avaliação profissional quando o uso da tecnologia vem acompanhado de sofrimento emocional ou prejuízos importantes na vida do adolescente. Alguns sinais podem incluir:


  • Isolamento persistente;

  • Ansiedade intensa ao ficar sem internet;

  • Alterações importantes no humor;

  • Perda de interesse por atividades presenciais;

  • Conflitos familiares frequentes relacionados ao uso das telas;

  • Prejuízo escolar significativo;

  • Alterações importantes no sono ou na alimentação.


Em muitos casos, o excesso de tecnologia não é o problema principal, mas um sinal de que o adolescente está enfrentando dificuldades emocionais que precisam ser compreendidas. A psicoterapia oferece um espaço seguro para investigar essas questões, fortalecer recursos emocionais e ajudar o adolescente a desenvolver uma relação mais equilibrada com a tecnologia, sem recorrer apenas a proibições ou punições.


Referências

Hale, L., & Guan, S. (2015). Screen time and sleep among school-aged children and adolescents: A systematic literature review. Sleep Medicine Reviews, 21, 50–58. https://doi.org/10.1016/j.smrv.2014.07.007

Keles, B., McCrae, N., & Grealish, A. (2020). A systematic review: The influence of social media on depression, anxiety and psychological distress in adolescents. International Journal of Adolescence and Youth, 25(1), 79–93. https://doi.org/10.1080/02673843.2019.1590851

Orben, A., & Przybylski, A. K. (2019). The association between adolescent well-being and digital technology use. Nature Human Behaviour, 3(2), 173–182. https://doi.org/10.1038/s41562-018-0506-1

World Health Organization. (2019). International classification of diseases for mortality and morbidity statistics (11th ed.). World Health Organization. https://icd.who.int/

Odgers, C. L., & Jensen, M. R. (2020). Annual Research Review: Adolescent mental health in the digital age: Facts, fears, and future directions. Journal of Child Psychology and Psychiatry, 61(3), 336–348. https://doi.org/10.1111/jcpp.13190

 

 
 
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