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Abuso sexual contra meninos: o silêncio que também precisa ser rompido

  • Foto do escritor: Tiago
    Tiago
  • 11 de jul.
  • 5 min de leitura

Quando se fala em abuso sexual na infância ou adolescência, muitas pessoas pensam imediatamente em meninas. Essa percepção faz com que um problema importante permaneça invisível: meninos também sofrem abuso sexual, muitas vezes em silêncio e por longos períodos.

Embora as meninas sejam vítimas com maior frequência nas estatísticas, pesquisas nacionais e internacionais mostram que um número expressivo de meninos também vivencia esse tipo de violência. O silêncio costuma ser ainda maior entre eles, influenciado por vergonha, medo de não serem acreditados e expectativas culturais sobre como um "homem deve ser". Para pais e responsáveis, conhecer esse tema é uma das formas mais importantes de proteger adolescentes.


MENINOS TAMBÉM SOFREM VIOLÊNCIA SEXUAL

Uma revisão sistemática conduzida por Stoltenborgh e colaboradores (2011), reunindo dados de diversos países, estimou que aproximadamente 8% dos meninos sofreram abuso sexual antes dos 18 anos. Os autores destacam, porém, que esse número provavelmente é inferior à realidade, já que muitos casos nunca chegam ao conhecimento das autoridades ou sequer são revelados durante pesquisas.

No Brasil, os dados também apontam para uma importante subnotificação. O Atlas da Violência e os boletins epidemiológicos do Ministério da Saúde mostram que a maior parte das notificações envolve meninas, mas milhares de meninos também aparecem entre as vítimas todos os anos. Especialistas ressaltam que a diferença entre os sexos é influenciada não apenas pela ocorrência da violência, mas também pela maior dificuldade de revelação entre os meninos.


POR QUE TANTOS ADOLESCENTES DEMORAM A REVELAR?

Uma das perguntas mais frequentes feitas pelos pais é: "Se isso aconteceu, por que ele não contou?" A resposta não é simples. Sim, muitos meninos demoram anos para revelar o abuso ou nunca chegam a falar sobre ele. No entanto, em uma revisão publicada por Alaggia, diversos fatores apareceram de forma recorrente: medo de ameaças, vergonha, culpa, receio de desestruturar a família e temor de que sua masculinidade ou orientação sexual fossem questionadas.

Trocando em miúdos. Muitos meninos podem interpretar como “iniciação sexual” violências cometidas por mulheres mais velhas, assim como mantêm em segredo violências cometidas por homens, visto a vergonha e receio de serem entendidos como “gays”. Muito do que sabemos envolve a pesquisa com homens adultos, pois muitos destes aspectos os meninos demoram a sentir-se seguros para revelar. Outro cenário é o receio de consequências para a família (muitas situações de violência acontecem com figuras conhecidas da família e mesmo parentes próximos).

Muitos adolescentes também acreditam que ninguém irá acreditar neles, principalmente quando o agressor ocupa uma posição de confiança, como um familiar, conhecido ou pessoa respeitada pela comunidade. Sobre este ponto, acho relevante endossar que, isto é recorrente com muitos meninos. A ideia de que, se ele é homem, ele deveria ter tido ímpeto de se defender e se não o fez é porque quis ser abusado. Essas crenças aumentam o sofrimento e podem prolongar o silêncio. Ainda existem mitos culturais que dificultam essa revelação, como a ideia de que meninos deveriam conseguir se defender ou que apenas meninas podem sofrer violência sexual.


QUEM COSTUMA SER O AGRESSOR?

Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, o abuso sexual raramente é cometido por um desconhecido. Diversos estudos mostram que, na maior parte dos casos, o agressor é alguém conhecido da vítima: familiares, padrastos, tios, irmãos mais velhos, vizinhos, treinadores, líderes religiosos, professores ou outras pessoas que conquistaram gradualmente sua confiança.

Esse processo, conhecido como grooming, consiste em estabelecer uma relação de proximidade, afeto ou dependência antes da violência ocorrer. O agressor pode oferecer presentes, atenção especial, favores ou criar situações de segredo entre ele e o adolescente. Por isso, orientar filhos apenas a "não conversar com estranhos" é insuficiente para a prevenção.


QUAIS SINAIS PODEM APARECER?

Não existe um comportamento único que indique abuso sexual. Alguns adolescentes apresentam mudanças bastante visíveis; outros continuam aparentemente iguais por muito tempo.Entre os sinais que merecem atenção estão:


  • Isolamento social repentino;

  • Tristeza persistente;

  • Irritabilidade incomum;

  • Crises de ansiedade;

  • Alterações importantes no sono (incluindo pesadelos);

  • Queda no rendimento escolar;

  • Perda de interesse por atividades antes prazerosas;

  • Medo intenso ou evitação de determinadas pessoas ou lugares;

  • Comportamento sexual incompatível com a idade;

  • Automutilação ou outros comportamentos de risco.


Nenhum desses sinais confirma, isoladamente, que houve abuso. Eles apenas indicam que o adolescente está vivendo algum sofrimento importante e precisa ser escutado com cuidado. Vale destacar que o impacto de situações assim pode aparecer muitos anos depois e as consequências do abuso sexual variam bastante. Enquanto alguns adolescentes apresentam sintomas logo após a violência, outros desenvolvem dificuldades emocionais apenas anos mais tarde.

Uma revisão realizada por Maniglio (2009) mostrou que pessoas que sofreram abuso sexual na infância apresentam maior risco de desenvolver diversos transtornos mentais, incluindo depressão, ansiedade, transtorno de estresse pós-traumático, abuso de álcool e outras drogas, dificuldades nos relacionamentos e maior vulnerabilidade a outros problemas de saúde mental ao longo da vida.

Isso não significa que toda vítima desenvolverá esses transtornos, pois o impacto depende de diversos fatores, como a duração do abuso, a relação com o agressor, a existência de apoio familiar e o acesso precoce ao tratamento psicológico.


O QUE FAZER SE UM MENINO CONTAR QUE PASSOU POR UM ABUSO?

Receber uma revelação de abuso costuma ser um momento extremamente difícil para qualquer família. Talvez a dica inicial é segurar um pouco as próprias reações emocionais diante do fato e sustentar ouvir com calma, evitando interromper ou pressionar o adolescente para contar todos os detalhes. É importante dizer claramente que:


  • Ele fez bem em contar;

  • A responsabilidade é sempre do agressor;

  • Ele não está sozinho;

  • Haverá adultos responsáveis para protegê-lo.


Também é fundamental evitar perguntas repetitivas ou investigativas. Esse papel cabe aos profissionais capacitados, para reduzir o risco de revitimização. Priorizamos que, se ele precise contar detalhes, que seja com profissionais habilitados para evitar retraumatização.

Sempre que houver suspeita ou confirmação de abuso sexual, a legislação brasileira prevê a necessidade de proteção da criança ou adolescente e comunicação aos órgãos competentes. Além disso, uma avaliação médica e psicológica deve ser realizada o mais precocemente possível.


O PAPEL DA PSICOTERAPIA

Nem todo adolescente que sofreu abuso apresentará sofrimento psicológico imediato. Ainda assim, oferecer um espaço de escuta costuma ser uma medida importante. A psicoterapia pode auxiliar o adolescente a elaborar a experiência traumática, compreender emoções difíceis como culpa e vergonha, fortalecer sua autoestima e reconstruir relações de confiança. É comum os mais velhos trazerem questões e dúvidas sobre a própria sexualidade.

O tratamento também oferece orientação aos pais, que frequentemente experimentam sentimentos intensos de culpa, impotência ou raiva diante da violência sofrida pelo filho. Quanto mais cedo o adolescente encontrar adultos que o escutem com respeito, proteção e acolhimento, maiores são as possibilidades de reduzir os impactos do trauma e favorecer seu desenvolvimento saudável.

 

REFERÊNCIAS UTILIZADAS E SUGERIDAS:

Alaggia, R. (2004). Many ways of telling: Expanding conceptualizations of child sexual abuse disclosure. Child Abuse & Neglect, 28(11), 1213–1227. https://doi.org/10.1016/j.chiabu.2004.03.016

Cerqueira, D., Bueno, S., et al. (2024). Atlas da Violência 2024. Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) & Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Hohendorff, J. V., Habigzang, L. F., & Koller, S. H. (2014). Violência sexual contra meninos: teoria e intervenção. Juruá

Maniglio, R. (2009). The impact of child sexual abuse on health: A systematic review of reviews. Clinical Psychology Review, 29(7), 647–657. https://doi.org/10.1016/j.cpr.2009.08.003

Ministério da Saúde. (2024). Boletim Epidemiológico: Vigilância de Violências Interpessoais e Autoprovocadas. Ministério da Saúde.

Pires Filho, M. F. (2009). Abuso sexual em meninos: A violência intrafamiliar através do olhar de psicólogo que atende em instituições. Juruá.

Pinto Junior, A. A. (2005). Violência sexual doméstica contra meninos. Vetor Editora.

Stoltenborgh, M., van IJzendoorn, M. H., Euser, E. M., & Bakermans-Kranenburg, M. J. (2011). A global perspective on child sexual abuse: Meta-analysis of prevalence around the world. Child Maltreatment, 16(2), 79–101. https://doi.org/10.1177/1077559511403920

 


 
 
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