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A escola me fez acreditar que eu era burro: se você sobreviveu à escola, este texto é para você!

  • Foto do escritor: Tiago
    Tiago
  • há 3 dias
  • 3 min de leitura

Pintura: The Dunce (1886), Harold Copping


Certamente você ou alguém que você conhece se viu, em algum momento, como "menos capaz" simplesmente porque não ia bem nas avaliações escolares.


Mesmo sem ser dito expressamente, crescemos associando que notas baixas significam menor capacidade, quando na verdade muitas vezes significam o desencontro entre o que aprendemos, como foi ensinado e como estamos sendo avaliados. A escolarização formal ainda valoriza intensamente a memorização e a reprodução de conteúdo em detrimento da curiosidade, pensamento crítico, criatividade e diversidade cognitiva (Willingham, 2022).


Neste sentido, muitas escolas falham em reconhecer formas legítimas de aprender, individualizando a não-aprendizagem no aluno. A este será atribuído um transtorno de aprendizagem, ou uma incapacidade estrutural (a baixa inteligência), ou ainda é entendido como preguiçoso e/ou pouco engajado. Daí dá-lhe profissionais de saúde e educação para cuidar deste aluno-problema!


Veja bem, não é que estas possibilidades não existam, mas é injusto centralizar, com tamanha recorrência, a não-aprendizagem no aluno, quando a educação, por ser um processo social (escolar ou não-escolar), não depende apenas do aluno. A avaliação de aprendizagem pode ser precisa ser repensada e nem sempre o é (boa discussão em Fidalgo, 2006) E cá entre nós? Tem muita coisa que não envolve só os alunos e impacta na aprendizagem: métodos eficientes, materiais, domínio docente, organização do conteúdo, etc.


Neste contexto, sistemas educacionais centralizados em testes padronizados podem gerar a falsa equivalência entre “bom desempenho escolar” e “inteligência”. Isso não é só uma percepção pessoal: pesquisas em educação têm mostrado que provas e rankings avaliam competências específicas, muitas vezes ligadas à classe social, ao acesso a recursos e ao apoio familiar, mais do que à capacidade cognitiva real dos estudantes (Au, 2007).


Pessoas autodidatas, criativas, empreendedoras, artísticas ou intuitivas muitas vezes tiveram desempenho escolar discreto ou mesmo irrisório. Isto ocorre não por falta de inteligência, mas porque nem as suas escolas, nem espaços outros (i.e., família, espaços de contra turno, serviços de fortalecimento de vínculos) ofereceram outros modos de reconhecimento. (ver Arya & Maurya, 2016; Gralewski & Karwowski, 2012)


Eu escrevi este texto pensando nas pessoas, via de regras meninos que são a cara e gênero do aluno-problema, cheios de habilidades, capacidade de resolução de problemas e iniciativa e que, por não terem ido bem na escola ainda se consideram “burros”. Se você saiu da escola acreditando que era “burro”, saiba: o problema não era você! Era o modelo que tentou medir você com uma régua que não foi feita para isso. E ainda faz isto todos os dias. E hoje, mais do que nunca, reconhecemos que aprender é algo plural. A sua trajetória importa, e sua inteligência também.


Eu escrevi este texto pensando nas pessoas, via de regra meninos que são a cara e gênero do aluno-problema, cheios de habilidades, capacidade de resolução de problemas e iniciativa e que, por não terem ido bem na escola, ainda se consideram “burros” mesmo na vida adulta. Se você saiu da escola acreditando que era “burro”, saiba: o problema não era você! Era o modelo que tentou medir você com uma régua que não foi feita para isso. E ainda faz isto todos os dias. E hoje, felizmente, reconhecemos que aprender é algo plural, embora nem sempre saibamos lidar com isto.


A sua trajetória importa, e sua inteligência no mundo também.



REFERÊNCIAS:

Arya, M., & Maurya, S. P. (2016). Relationship between creativity, intelligence and academic achievement among school going children. Studies on Home and Community Science, 10(1–3), 1–7. https://doi.org/10.1080/09737189.2016.11885359


Au, W. (2007). High-stakes testing and curricular control: A qualitative metasynthesis. Educational Researcher, 36(5), 258–267. https://doi.org/10.3102/0013189X073065


Gralewski, J., & Karwowski, M. (2012). Creativity and school grades: A case from Poland. Thinking Skills and Creativity, 7(3), 198–208. https://doi.org/10.1016/j.tsc.2012.03.002


Fialgo, S. S. (2006). A avaliação na escola: um histórico de exclusão social-escolar ou uma proposta sociocultural para a inclusão? Revista Brasileira de Linguística Aplicada, 6(2). https://doi.org/10.1590/S1984-63982006000200002


Willingham, D. T. (2022). Por que os alunos não gostam da escola?: respostas da ciência cognitiva para tornar a sala de aula mais atrativa e efetiva. 2ª edição. Penso.

 
 

Psicólogo Tiago Peixoto (CRP 08/23510) - Edifício Palace Executive Center - Avenida Padre Anchieta, 1691, Sala 406 - Bigorrilho, Curitiba - PR

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