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Eis o tédio: quando nada faz sentido

  • Foto do escritor: Tiago
    Tiago
  • 14 de dez. de 2025
  • 4 min de leitura

Atualizado: 22 de dez. de 2025

Você já teve aquela sensação de que está sempre ocupado, mas nada realmente vivo acontece por dentro? Ou de que os dias passam, as tarefas se repetem, e ainda assim sobra um vazio difícil de explicar?


Muita gente chama isso desânimo, falta de motivação ou até “drama”. Mas a psicologia e a filosofia chamam isso por outro nome: tédio. E ele é muito mais sério, e mais importante, do que parece. O tédio não é apenas não ter o que fazer. Ele surge justamente quando fazer demais já não produz sentido.


O que é o tédio, afinal?


O tédio pode ser entendido como uma experiência de tempo vazio de significado. Não é apenas estar desocupado, mas sentir que aquilo que se faz não toca, não envolve, não move.


Pesquisas mostram que, especialmente entre jovens, o tédio aparece quando o tempo livre é vivido como algo inútil, incômodo ou até angustiante. Em vez de descanso ou criatividade, surge a urgência de “passar o tempo logo” - geralmente preenchendo-o com estímulos rápidos, como redes sociais, vídeos e consumo constante de alguma outra coisa.


Nesse sentido, o tédio não é só individual. Ele é também um sintoma da vida contemporânea, marcada por excesso de estímulos, pressão por produtividade e pouca conexão com experiências que realmente fazem sentido.


Como o tédio se apresenta na vida cotidiana?

O tédio não aparece sempre da mesma forma. Ele pode se manifestar como:

  • sensação constante de vazio ou desinteresse

  • dificuldade de se envolver com estudos, trabalho ou relações

  • procrastinação excessiva

  • cansaço sem motivo claro

  • sensação de estar “vivendo no automático”

  • pensamentos do tipo: “é só isso?”, “qual o sentido de tudo isso?”


Alguns estudos descrevem o tédio como uma forma silenciosa de resistência ao imperativo de estar sempre produzindo, rendendo, "dando conta". Quando o corpo e a mente não aguentam mais essa lógica, eles freiam - e o tédio aparece.

Em situações mais graves, especialmente quando associado ao isolamento, à depressão e à perda de vínculos, o tédio pode se tornar profundamente doloroso e até perigoso, funcionando como um intensificador do sofrimento psíquico..


Tédio ou Ócio


Muitas pessoas confundem tédio com ócio, mas eles são experiências muito diferentes. O tédio aparece quando o tempo parece vazio e sem sentido: nada anima, nada envolve, e mesmo com coisas para fazer, surge a sensação de estar desligado da própria vida. Já o ócio é um tempo livre vivido com presença, sem culpa e sem a obrigação de produzir algo útil. No ócio, o tempo não pesa - ele ajuda a descansar. É nesse espaço mais lento que a criatividade, o desejo e as perguntas importantes sobre a vida podem surgir. Enquanto o tédio costuma sinalizar uma desconexão interna, o ócio cria a chance de reconexão consigo mesmo. Do tédio pode surgir o ócio.


O tédio é sempre algo ruim?

Não necessariamente.

A filosofia e a psicologia mostram que existe mais de um tipo de tédio. Além do tédio que paralisa e esvazia, existe também o tédio criativo — aquele que surge quando as distrações cessam e somos obrigados a nos encontrar conosco mesmos.

Do ponto de vista existencial, o tédio pode ser entendido como uma pausa forçada. Ele interrompe o fluxo automático da vida e nos coloca diante de perguntas que normalmente evitamos: Quem sou eu? O que desejo? O que faz sentido para mim?

Autores ligados à psicologia analítica mostram que o tédio pode funcionar como um sinal de que a vida perdeu contato com algo essencial da própria subjetividade. Quando escutado, ele pode abrir caminhos de transformação, criatividade e reorganização do sentido. É quase consensual que o problema não é sentir tédio: o problema é anestesiá-lo sem escutá-lo.


O que fazer com o tédio?

Aqui vão alguns caminhos possíveis, mas que não devem ser entendidos como receitas e sim como convites:


1. Pare de tratar o tédio como inimigo

Nem todo desconforto precisa ser eliminado. Às vezes, ele precisa ser compreendido.

2. Observe o que perdeu o sentido

O tédio costuma apontar para áreas da vida vividas apenas por obrigação, expectativa externa ou automatismo.

3. Cuidado com o excesso de distrações

Quanto mais tentamos fugir do tédio com estímulos rápidos, menos espaço deixamos para experiências reais.

4. Transforme tédio em pergunta

Em vez de “como faço isso passar?”, experimente perguntar: O que em mim está pedindo mudança?

5. Busque ajuda quando o vazio pesa demais

Quando o tédio vem acompanhado de tristeza profunda, desesperança ou sensação de inutilidade, é importante não atravessar isso sozinho.


Para finalizar

O tédio não é falta de conteúdo. É falta de sentido e escutá-lo pode ser desconfortável, mas também pode ser o início de uma vida menos automática e mais própria.

Se você sente que anda vivendo no piloto automático, sem entusiasmo ou direção, a psicoterapia pode ser um espaço seguro para transformar esse vazio em caminho.


Se quiser conversar mais sobre isso, agende um atendimento ou acompanhe o blog para baixar materiais e reflexões sobre sentido, saúde mental e vida emocional.


Referências:

Gomes, Á. A. A. M., Alves, N. F. T., & Teixeira, S. M. O. (2019). Tédio em jovens contemporâneos. ECOS – Estudos Contemporâneos da Subjetividade, 9(1), 65–80.

Lima-Santos, A. V. de S., & Santos, M. A. dos. (2023). Tédio e procrastinação como modos de res(ex)istência no contemporâneo. Revista Psicologia e Saúde, 15, e15212428. https://doi.org/10.20435/ppssa.v15i1.2428

Minayo, M. C. S., Teixeira, S. M. O., & Martins, J. C. O. (2016). Tédio enquanto circunstância potencializadora de tentativas de suicídio na velhice. Estudos de Psicologia, 21(1), 36–45. https://doi.org/10.5935/1678-4669.20160005

Palomo, V. (2023). O tédio. Revista Junguiana, 41(2), 137–146. https://doi.org/10.70435/junguiana.v41i2.43

 
 

Psicólogo Tiago Peixoto (CRP 08/23510) - Edifício Palace Executive Center - Avenida Padre Anchieta, 1691, Sala 406 - Bigorrilho, Curitiba - PR

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